segunda-feira, 16 de maio de 2011

QUEM TEM MEDO DE PAULA FERNANDES ?

Ultimamente era o mesmo ritual: tinha pânico de abrir os olhos e se deperar com aquilo. Não era um boom econômico qualquer, nem alguma ameaça de guerra nuclear... o que apavorava aquele pacato e cotidiano cidadão era um fenômeno popular que atendia pelo nome de Paula Fernandes. Era no radinho do porteiro do seu prédio, no som ambiente da padaria, no bar de sua preferência... Às vezes sentia que até o bip do microondas era sincronizado com “Pássaro de Fogo” !!!! Mas naquele exato momento recusou-se a sair da cama: só um mero lasco de timbre da cantora sertaneja e ele entraria em surto. Sua esposa, achando estrando o atraso do homem em questão. Seu relógio biológico era duma britânica pontualidade, sistemático ao ponto de dar nos nervos... E assim era até mesmo aos domingos, quando se levantava mais cedo e dava uma caminhada pelo parque próximo ao seu apartamento. Uma rotina mais velha que seu filho mais velho. Nunca nestes dezesete anos deixara tal hábito. Daí o real estranhamento de sua mulher:
- Duarte, você não vai acordar não ?!
Sentiu um arrepio que ia da cervical até a pélvica de sua coluna. Por alguns segundos achou que aquela que o acordara não era a sua Leocádia de 16 anos de casamento, e sim a cantora de seus atuais pavores... Quis gritar, mas apenas perguntou em gaguejo:
- Quem... quem é ?!
- Oxi, Duarte... E quem haveria de ser ?! Sou eu...
A resposta não o convenceu. Não quis abrir os olhos, pensou em cobrir a cabeça com o cobertor e ficar em posição fetal, como se esperando alguma segurança materna ou sagrada.
- ‘Eu’ é uma resposta muito vaga. Pelo amor de Deus não me diga que você é quem eu acho que você é...
Já fula da vida, Leocádia arranca com força o lençol da cama, deixando nosso personagem apenas com o travesseiro com abrigo. E deste artíficio ele utilizou-se, colocando-o em cima de seu rosto.
- Duarte, deixa de brincadeira... O que é que há contigo hoje, meu Deus...
Cada sílaba dela parecia os tons da Paula Fernandes cantando um daqueles sucessos que ele tanto escutara nas suas andanças...
- Pelo amor de Deus, me deixe em paz !!! – desta vez em gritos.
A esposa analisa que a situação é realmente grave:
- Tou realmente preocupada com você, Duarte... Acho que vou ligar pro Doutor Pontes...
O nome do seu psicólogo não o tranquilizou. Tremia frio, sentia taquicardias inéditas, nem ao menos desejara ver a luz do sol naquele momento... Enquanto Leocádia falava com o doutor pelo telefone do criado-mudo, entra no quarto sua filha do meio – provavelmente estranhando o descomprometimento do pai em relação às caminhadas dominicais...
- O que houve, mãe ?!
- Ah, menina, é seu pai... Acho que ele não tá passando bem...
A garota então senta-se ao lado do pai. Estava escutando música pelo celular...
- Baixa este volume, criatura, que eu tou querendo falar com o Doutor Pontes – reclama a mãe – É todo dia neste vício de celular... E ainda por cima fica ouvindo esta Paula Fernandes o dia todo !!!!
A simples menção daquele nome já foi suficiente pra Duarte dar um pulo da cama e pedir:
- Não, não, ela não... Abaixa esta porcaria, não aguento mais esta cantora, estas músicas...
As duas ficam sem entender. Duarte vai se contorcendo, abaixando-se como se quisesse abraçar suas próprias pernas, feito menino em estado de birra. A filha desliga o celular e foge do quarto em prantos. Leocádia se aproxima do marido e diz:
- Duarte, meu querido, o que é que há contigo ?! Vem cá, vem... – segura-o e o traz para seu colo. Este finalmente resolve abrir os olhos e, constantando se tratar realmente de sua esposa, entrega-se ao acalanto dado por ela...
Leocádia então despe-o de seu pijama, lhe põe uma roupa mais covidativa e vão em direção ao psicólogo.

Por se tratar dum domingo, o consultório encontrava-se fecahdo. Mas sendo para o Duarte (que, como advogado, já o livrara de centenas de quiprocós burocráticos), o Doutor Pontes não relutou em atendê-lo de imediato.
- Mas o que ouve exatamente, Leocádia ?!
Achou estranho o jeito como Duarte se portava, parecendo depressivo, acuado, olhar desconfiado para todos os lados, sempre dizendo não querer ouvir algo...
- Doutor, eu não sei ao certo... O Duarte é super pontual em seus afazeres, o senhor sabe. Hoje, do nada, ele me acorda neste estado...
O psicólogo se levanta e anda ao redor do paciente, com a mão no queixo, como se analisando minunciosamente a pessoa.
- Hum, sei... Mas ele diz alguma coisa, fala o que é que está o aflingindo desta maneira ?!
Ao término desta pergunta, Leocádia se levanta e puxa o doutor até um canto da sala. Diz em num tom quase inaudível:
- Doutor, desconfio que ele esteja com fobia da Paula Fernandes...
O médico, bobo com o dito, pergunta num tom mais lato:
- Da Paula Fernandes ?!
No exato momento, o enfermo começa uma de suas crises:
- Não, ela não... Não aguento mais ela, não, pela amor de Deus !!!
A esposa se aproxima de Duarte, tentando acalma-lo. Olha então como um inquisidor para o médico, que bestificado se recolhe à sua cadeira e proclama:
- Por Freud, isto é espantoso... É conhecido algumas fobias e muitos estresses por coisas do mundo moderno, mas nada como isto aqui... Nunca soube de alguém que tivesse alguma crise esquizofrênica por causa dum fenômeno pop !!!
Leocádia (já constatando que o marido estava mais calmo mediante aquilo tudo) senta-se na cadeira ao lado e pergunta diretamente ao médico:
- Mas, doutor... E isto tem algum tratamento ?!
O médico – analisando um prontuário – diz, meio cético:
- Leocádia, minha amiga... Eu poderia recomendar um forte tratamento de choque, mas isto não seria tão viável, em se tratando de um paciente sem nenhum problema grave psicológico até então. Bem, o que aconselho é que ele vá pra casa, relaxe um pouco, dê-lhe, se preciso, um daqueles anti-depressivos naturais que lhe recomendei em sua última sessão. Podem até funcionar em caso de algum novo surto...
A esposa agradece, recolhe seu marido como se fosse uma criança pequena, mas atntes de sair ainda escuta o doutor dizer:
- Leocádia, querida... Em caso de crises mais frequentes, favor traga-o para cá imediatamente. Um caso destes pode me render uma reportagem de capa em alguma revista médica e...
Leocádia bate a porta com força, antes mesmo do doutor completar sua explanação.

Por incrível que pareça, depois dum simples relaxamento em casa, regada à mínimos cálices dum Cabernet básico e ao som de Maria Bethânia e Billie Holiday (duas paixões do referido), Duarte se recupera e toca sua vida em paz. Óbvio que ele não se livrou do "rito" Paula Fernandes - este é crescente e perene, tanto quanto musgos ou ervas-daninhas que nascem fecundos em todos os cantos, nem de ouvi-la em osmose por quaisquer vielas da vida, mas logo aprendera um método eficiente de se livrar de tal nefasto mantra: graças aos filhos, ele comprou um celular dos mais modernos e hoje ele é craque em baixar músicas e colocar o aparelho para funcionar ao estilo walkman, como na época em que ouvia Iron Maiden (hoje os abomina) no último talo, numa tentativa de fugir das Gretchens da vida...

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