sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

CORAÇÃO PARADO

"A outra pessoa é um enigma. E seus olhos são de estátua: cegos."
(Clarice Lispector)


Ele pesava mais de três centenas de quilos. Gordura mórbida. Não mais andava, vivia deitado sob uma cama revestida de tijolos por debaixo dela. Era cuidado por uma filha adotiva, Bernadete, chamada carinhosamente por Bé. Mal levantava os braços, fazia suas necessidades em enormes fraldões geriátricos. Tinha a respiração ofegante e alimentava com mais de trinta pãezinhos francês por dia. Sobreviviam com uma aposentadoria por invalidez e com ajuda de alguns vizinhos. A casa não tinha grandes luxos, dois quartos e uma cozinha com parede a reboque. Bé era uma linda moçoila, uns 25 ou até menos. Amorenada, cabelos encaracolados, vestia-se com severidade.
No quarto dele havia uma TV preto e branco. Gostava de assistir desenhos e acompanhava todas as novelas. Acima do criado-mudo muitos remédios. Tomava uns catorze por dia, muitos de tarja preta. Bé recortava fotos dos galãs. Gostava do Santoro, sentia que já o havia visto sem nunca tê-lo visto antes: fora num sonho e ele era um príncipe das Arábias que a seqüestrava para uma isolada cabana do deserto. Guardava todas as fotografias num surrado caderno. Colava-as e escrevia ditos amorosos. O gordo chamava-se Ulisses e engordara duma hora para outra. Antes trabalhava numa metalúrgica. Era feliz. Adotou Bé ainda criança de colo. Não sabia se tinha sorte ou arrependimento disto. Quando a TV lhe causava tédio olhava para as rachaduras do teto donde dormia. Imaginava seu coração parado, qual sensação será ? Queria um infarto que nunca chegava. Viver, para quê ? Não podia mais bater a pelada de sábado, nem ir aos churrascos de amigo, nunca mais... Vivia aos choros, queria dar menos trabalho a Bé.
Bé comprava os pães diariamente. O dinheiro não dava, pendurava às vezes. Ganhava a maioria gratuitamente. O padeiro da rua chamava-se Vitalino e por ela guardava uma grande estima. Sempre que possível a ajudava nos asseios ao pai. Sempre era preciso de gente para trocar-lhe as fraldas. Vitalino tivera um irmão gêmeo que falecera. Chamava-se Vital e algumas pessoas ainda o confundiam com ele. Para evitar isto passou a usar bigodes. Bé não simpatizava homens de rosto peludo. O irmão morto era o oposto de Vitalino: mulherengo, irresponsável, doidivanas completo. A timidez de Vitalino era tamanha que o único beijo que dera na vida fora de uma garota que, nas adolescências, o confundira com o finado Vital. Bé começou lendo romances água-com-açúcar, destes vendido em banca. Por recomendação de um conhecido, leu Lispector. Achou-a nojenta e resolveu ler a Bíblia. Hoje retornou a ler Lispector. A via crucis do corpo, seu livro de cabeceira.


De uns tempos pra cá, Bé havia de acordar encharcada. No começo não se lembrava do que sonhara. Achou que eram lombrigas, tomou um remédio e começou a obrar verde. Abandonou a medicação, mas continuara a suar. Tudo mudara duma hora para outra. Estava mais displicente nas higienes do pai. Só trocava-lhe os fraldões quando o exalar do fedor impregnava o casebre. Não sabia porquê. Começou a sentir-se mal quando tratava do pai, enjoava-lhe apenas a simples visão dele. Resolveu então rasgar as fotos do Santoro. Inconscientemente.
Um dia, contudo, teve um sonho nítido: via o pai com excitação, beijava-lhe o rosto, logo os lábios. Lascívamente. Então tirava o pobre vestido sem renda alguma. Exibia os pequeninos seios, ainda estava de calcinha. Subia no montanhês corpo e acariciava-lhe o órgão genital. Aí acordou, novamente em líquidos. Tentou rezar uma Salve-Rainha, não tinha concentração. Tomou um copo d’água e, pé-antepé, encaminhou-se para o quarto de Ulisses. Este dormia, roncava alto. Percebeu que a excitação ultrapassava o onirismo, não acreditava que poderia um dia ver o pai com tamanha indecência.
Friamente dirigia-se a ele. Apenas o alimentava e cuidava de seu hábito com os remédios e as assepsias. Ulisses achou que fosse um efeito natural de quem havia percebido o estorvo que era tratar de alguém em tal patologia. “Como Bé está linda a cada dia...”, pensava. E, no destravar do eterno, concebia-se anestesiado pelo platonismo de um amar ainda maior... Não a via somente como fruto seu: desejava enquanto carne, tinha-lhe libido, imaginava ereções apenas por ela, em seus delírios havia um aroma de pecado e a falta da ascese qualquer, destas litúrgicas, destas de pai... A sua razão ordenava-lhe, amoral : “Entrega-te ! Não és tua filha original ! Tu destes teus centavos de vida por ela ! Cobre-lhe de ósculos culposos, faça-lhe diáfana destes teus martírio, ame-a como nunca amaste mulher alguma ! Mostra-lhe quão viril és...”. E, catatônico, ouvia a voz como se esta fosse do padre em catequese duma distante nostálgica infância. Ulisses engordava mais a cada dia, chegara talvez aos 400 quilos. Aquilo não era vida. Seus olhos eram repletos de lágrimas e dor. Queria, esperava apenas a morte como consolo de todo seu sofrer. Esperanças findadas, enxergava vil os calendários e as horas. Em crise, pedia para ver álbuns antigos. Bé, sabendo do clamor que seria aquelas averiguações, escondia-os. Não adiantava; aí era aumentar seu penar. Então liberava e as simples passadas naquelas fotos amareladas, tempos de metalúrgico, tempos da pelada de sábado, tempos de Bé ainda no colo, tempos do bigode, do início da calvície, tempos do churrasco, tempos da vida... O pranto era sem controles. Deseja um infarto, o coração parado...
Bé lia um trecho do livro pousado na cabeceira. Estava sublinhado em caneta vermelha: “...A morte é de grande escuridão. Ou talvez não. Não sei como é, ainda não morri, e depois de morrer nem saberei. Quem sabe se não tão escura. Quem sabe se é um deslumbramento. A morte, quero dizer...” . Não sabia o porquê da frase. Sentia emoções ao lê-la. Lispector sempre a emocionava. Mas não temia sua própria morte. Não gostava era de imaginar a morte do pai. Ainda tinha aqueles estranhos sonhos. Pensou em procurar um padre ou o pastor do templo perto de sua rua. Este sempre o ajudara com cestas básicas. Também percebera o jeito como ele olhava para suas pernas. Decidiu então se macular em masturbação.

Naquela manhã, Ulisses acordou sem acordar. Abriu os olhos com dificuldade, mal respirava. Tentava puxar ar, mas aquilo lhe fazia doer os pulmões. Sentia pontadas no coração. Fortes pontadas. Um misto de felicidade e torpor atingia seu sorriso amarelo. As pontadas cresciam em intencionalidades. Fortes pontadas. Não gritou, sentiu que o infarto estava chegando. O coração parado. Mas teve uma hora que não deu. O urro era o sinal que sua paz era então desejada. Berrou a dor, gritou a alegria ! Bé, automaticamente, levantara e vira a cena: o rosto do pai estava cinza, parecia sufocado. A respiração ofegante, um grito ! A dor do obeso mórbido era sua própria dor.
Saiu, ainda de camisola, pela rua a clamar por ajuda. Ainda era muito cedo, muitos dormiam. Aos poucos uns e outros apareciam para saber que mal havia. Bé dirigiu-se para a casa de Vitalino, batendo na porta com aflição. Este parecia que anestesiado em graça: que beleza eram os pequenos seios de Bé que transpareciam pela seda tosca de seu decote ! Distinguira com nitidez os mamilos negroídes, intumescidos pelo frio das seis... Pela primeira vez a via com os cabelos desgrenhados, natural de seu despertar, parecia uma princesa que acordava de feitiço após cem anos de latência. Observava isto tudo do olho-mágico, mal percebendo a insistência das batidas. Abriu a porta e logo Bé conclamou do acontecido.
Foram preciso mais de quinze homens para a remoção do corpo. Fez-se necessário derrubar paredes para que Ulisses recebesse o socorro. Tudo era liderado por Vitalino, que dividia a atividade consolando a indócil Bé. A moça misturava uma estranha paralisia com choros leves, agudos, ácidos... Com trabalho colocaram-no numa ambulância.
Na rua só havia um posto de saúde, bastante modesto. O grande hospital público ficava distante, temiam que Ulisses não sobrevivesse à viagem. No posto de saúde só havia um clínico geral, mesmo assim ainda estagiário. Também tinha um obstetra. O clínico geral estava em seu horário de folga, o obstetra, sem saber o quê indicar, recomendou o entubamento do paciente. O rosto acinzentava cada vez mais, estava inconsciente e quando não, gemia. Bé dizia que a morte do pai era a morte dela também. Naquele momento só havia Vitalino, que fumava para esquecer os fatos. Nunca fumara, mas guardava um maço para uma certa ocasião. Recebeu reclamações da enfermeira e acabou apagando o cigarro num vaso de planta. Bé escondia o rosto em seu próprio colo, parecendo buscar uma posição fetal. Finalmente o clínico geral chegou. Não desaconselhou o ato do obstetra, mas disse que pouco havia o que se fazer com o dantesco obeso.Era preciso uma cirurgia e ele não era especialista, nem havia condições no posto de saúde para tal.Aquilo apunhalava Bé aos poucos. Ainda estava de camisola, mas agora coberta com um casaco. Vitalino deu-lhe água num copo plástico e saiu vagarosamente.
Sabia Vitalino que a única chance de salvar Ulisses era pagando uma clínica particular. Sabia que salvá-lo era restabelecer vida à sua amada. E então sacou o pouco que tinha em cadernetas de poupanças e penhorou dois relógios ganhados em herança. Pôs no prego também a sua padaria. Conseguiu pouco montante, o suficiente para a cirurgia e um dia de internação num bom centro cardiovascular. Quando soube da transferência de seu pai, sentiu-se Bé miraculosa. O transporte de helicóptero foi bastante ágil.
Já na recepção de um bom hospital, Bé esperava notícias. Pensou, pela última vez, no pai eroticamente. Repudiou-se. Vitalino ofereceu-lhe o terço que sempre trazia em seu pescoço. Bé segurou-o e Vitalino arrepiou-se com o breve tocar de dedos. A moça segurava o terço, mas não tinha fé alguma. Segurava-o e não via Deus algum: apenas lembrou-se de um conto de Lispector, Melhor do que Arder. Gravara-o por inteiro, recitava-o de cor. Fez dele uma ave-maria e concentrava-se para que nenhuma palavra fugisse de sua memória. Durante sua baixa reza, pensou em mãos segurando os seus seios. Olhou para Vitalino, este parecia cochilar. Queria que aquelas mãos fossem dele.
Seguiu-se a segunda hora da operação. Bé aceitou o café que Vitalino lhe trouxe. Agora batia as mãos em seus joelhos. Tivera tempo de trocar a camisola por um vestido. Vitalino trouxe-lhe da casa da moça. Mantinha o terço como amuleto fiel, não o desatara entre dedos. O médico aparece. Tinham manchas de sangue na roupa branca que usava. Com uma só mão tirara a máscara de seu rosto. Perguntou por Bernadete e esta apresentou -se. “Com dor, eu lamento...”, falou o médico pausadamente, quase que adestrado.

Bé não chorou tanto. Vitalino não sabia o que dizer, nem como agir. Deu socos na parede, quis demonstrar o mínimo de raiva que a notícia lhe causava. Não que fingira, mas sentiu que encenara pra caramba. Bé quis ver o corpo do pai, mas indicaram-lhe que o já cadáver agora passava pela burocracia da necropsia. Ulisses morreu com quase meio mil quilos e teve três paradas cardíacas durante a operação.

Um enterro bonito. Não sabiam como, mas conseguiram colocar o corpo num caixão comum. Havia poucas flores e nenhuma coroa. Umas quinze pessoas, alguns amigos da metalurgia, ninguém das antigas peladas. Bé trajava luto em preto e um jeans. Primeira vez que usava calças. O caixão estava lacrado e não se via o rosto do moribundo. Será que serraram-no ?! Vitalino não cogitou isto. Aproximou-se de Bé em consolo. Saíram do cemitério de mãos dadas.

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