segunda-feira, 6 de outubro de 2014

NESTAS ARTES DO ENCONTRO...




Liam o mesmo livro. Não sabiam disto, contudo: ambos antípodas nos lados de trilhos do metrô, separados por metros, não se percebem... Cada um com sua leitura e ocupações diversas: ele um tanto desatento, passeava os olhos pela mesma página, lia repetidamente o mesmo parágrafo, observava a capa em bis, queria um cigarro ou uma bala, quiçá os dois... Ela concentrava-se numa passagem do livro, aquilo que lhe trouxera um estranho arrepio, uma inédita vontade de fumar ou de comer algo doce, olhou o relógio e analisou demoras em sua habitual condução... O sistema de som anuncia atraso numa das vias, ele bufa, observa as horas numa das telas da estação, deduz não conseguir chegar a tempo hábil de uma reunião marcada, resolve procurar uma bebida, decide-se por um café preto num médio copo plástico... Ela lamenta não fumar, tira umas balinhas da bolsa, desembrulha um, marca a página lida com o papel que sobrou; olhando pra frente, descontenta-se pela cafeteria estar tão distante. Ainda não se percebem...
O livro dele estava fechado, acabara de comprá-lo num sebo, edição antiga, folhas cheirando a mofo, imaginava ser uma raridade, “o último deste exemplar foi comprado a pouco por uma jovem...”, lembrou-se de cada palavra do vendedor... Ela, em êxtase por ter aquela obra que tanto desejara, não via a hora de chegar em casa, tirar os sapatos, fazer um chá verde, relaxar em sua preguiçosa e começar a devorar cada página, inebriando-se do odor velho de cada uma delas, o prazer do intemporal destino que alguns objetos saboreiam... Leu uma dedicatória encontrada em uma página, “De Gui para Cicí, maio de 1973”. Achou infantilmente bonito os apelidos, a forma de se tratarem, não sabia quem era o masculino e o feminino, mas torceu pro mencionado Gui ser a mocinha da história, “combinaria mais comigo, sendo meu nome Guilhermina...”, divagou-se sorrindo... Ele pegou o livro do mármore balcão da cafeteria, examinou-o mais uma vez, cheirou-o num repeat já exegese, pediu mais um café, calculou que o atraso do metrô iria retardar a entrega do trabalho acadêmico, premiou-se com um cigarro, logo reprimido pelo guarda municipal e devidamente apagado num vaso de plantas próximo. Riu daquilo tudo sem saber ao certo porquê...

Contrariando algum capítulo de novela, o tempo passou sem um ditame de “meses depois...” e os metrôs finalmente chegam. Ambos se tranquilizam: ele por não querer prejudicar o seu grupo da faculdade, ela por saber que seu tranquilo e utopizado momento íntimo com o livro recém-comprado dependia apenas de variações do movimento uniforme do trem... Cotovelos e empurrões, por sorte conseguem lugar para sentar. “Janela, que bom!”, a moça exclama em silêncio. Acomoda sua bolsa num canto; ele contenta-se com o lugar ruim que lhe era concebido. Os metrôs ainda demoram um tempo para começar suas epopeias diárias, muitos entram, exprimem-se, rostos que pareciam aquele famoso quadro operário da Tarsila do Amaral, mas numa certa desordem nada constelar... Ela olha o teto do local, os transeuntes, um rapaz de boné que mexe em seu minúsculo aparelho de som. Como é de seu hábito, tenta driblar o contorcer natural e ver no visor qual música o dito escuta. A moça quase entra em faniquito ao descobrir que o estranho ouve Cícero, “Açúcar ou Adoçante”. Julgou-o ser seu príncipe encantado, embora não tenha gostado da sua barba por fazer – “quem neste mundo, além de mim, ouve Cícero?! Meu Deus, Cícero é meu, ninguém tem o direito de ouvi-lo, só eu...”, soberanou-se. No outro metrô, para azar dele, ao seu lado senta-se uma velhinha de chapéu e um perceptível mau hálito. Tenta puxar assunto, ele desvia olhares como uma estratégia de guerra. Olha para a janela defronte, tenta ler o que há no outro vagão... Ainda não se percebem.

Os metrôs movem-se, a inércia age como ondas diante um mar de gente, murmúrios como um estranho marulhar ritualístico: broncas, ofensas, palavrões, discursos sobre as más condições do transporte públicos, lamúrias e lamentações, crianças chorosas aqui e ali... Ela abre o livro, ama ler seu parágrafo inicial, “muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo...”. Olha para o rapaz do boné, que freneticamente aperta botões de seu Ipod. “Por que este cara fica mudando de faixas o tempo todo? Cara, ele tá ouvindo Cícero!!! Quem, em sua sanidade normal, ousaria pecar ao não se deleitar duma faixa inteira e interrupta de Cícero?! Ai, devia ter posto meu batom... Aposto que é só pose deste carinha e...”. Hipnótica, ela enxerga algo pela janela. Ambos se percebem...

(Contrariando qualquer lógica do escrito, recomendo, como trilha do encontro das personagens, ouvir em mantra “Pode Ser”, faixa 05 do debút da Banda do Mar...)

Física newtoniana ou desígnios divinos, Cupido ou o “S=so+vt” das equações dos encontros materiais, os vagões, em processo duma desaceleração incomum, se encontram num ponto, culminando numa pane no exato momento em que janelas se defrontam uma com a outra, o instante hollywoodianamente necessário para que ambos se percebam, como já fora mencionado... Ele a acha bonita, observa a coincidência dos livros, das edições, das capas... Ela, embasbacada com aquilo tudo, cogita, doidivana, em sair dali e correr atrás daquela figura que lhe parecia um ímpar espelho... Respira, pensa esmiuçar um sorriso insinuante, congela num derrame qualquer. Ele quer disfarçar o olhar de bobo diante aquilo tudo, não consegue. Admira mais sua beleza do que a obra em comum, mas mantém o livro em haste como alguma espécie de código. Definitivamente ela lamenta não ter passado batom, se sente horrível, mas petrifica-se num magnetismo incompreensível... Alguns segundos depois a solução se apresenta e os metrôs saem da estática. A visão de um do outro se torna passado num passar fugaz, não podiam agir. Desesperam-se... Ele, ainda muito atordoado, blasfema em palavrões audíveis, para horror da senhora adjacente... Ela pondera, pensa como agir e então deduz as paradas em algumas estações que o transporte, de praxe, faria. Se desse sorte dele não descer na próxima e ainda observar a janela, quem sabe conseguiriam algum sinal de proximidade... Pelos cálculos, isto seria em breve, não dava para sistematizar muito... Numa loucura digna dos que ousam goetheanamente, ela pega o batom e escreve na última página do livro, uma mera folha em branca aparentemente destinada para estas emergências... Do nada, ainda abstraiu Caetano “e o meu coração embora finja fazer mil viagens/ fica batendo parado naquela estação...”, substituindo o “naquela” por “nesta” e desenhando uma seta - era uma aposta, esperava que ele entendesse... Os metrôs param, ele se infla duma esperança de ainda ver a garota, observa a janela e vê o recado escrito numa folha de livro. Inclinou-se para ler, não se deu em abstrações ou surrealismos, mas entendeu...

Ao ver a figura saindo de seu campo de visão e indo em direção ao desembarque, ela também fez o mesmo, acotovelando-se na multidão como um bom halback de futebol americano... Ele, em mimetismo, correu entre empurrões, numa disritmia longe de sua racionalidade cética, saindo do vagão e procurando no diluviano populacional aquela que seria talvez o sentido de existir das suas pupilas... Ela se desvencilha dos empecilhos alguns segundos depois, apura sua visão atrás dele, procura-o entre todos, deseja uma escuridão de cinema oriundo de uma iluminação particular de filme, um holofote apenas nele, queria somente aquilo... Encontram-se...

“oi...” – tímido.
“olá... oi” – ofegante.
“pois é... Cem Anos, né...”
“é, a mesma edição e tudo...”
“Guilhermina...” – estende a mão.
“Cícero...”

Ela ri dos destinos... 

2 comentários:

Faby Sempere disse...

Amei o conto, amei por ser "Cem anos", queria ser Guilhermina...

Lucicleia Araújo de Oliveira disse...

como sempre, perfeito