segunda-feira, 21 de outubro de 2013

APRENDIZ


pestes das pestes:
rupestres diários que não decifro,
hieróglifos que não consigo ler...

aerólitos em forma de tufão,
surreais e irritantes
crias reais,
do zero aos décimos
no íntimo do desmazelo:
não quer, não faz
reclama quando perde
quer tudo com voracidade sutil,
sádicos que se dizem mágicos,
agitados em suas carteiras de aprender,
não respeitam o mestre,
não acalantam o destro,
destroem qualquer racionalidade,
distorcem a lógica com morfológicas
e repetidas pantomimas...

são anacrônicos, tecnológicos
não sabem, mas desafiam os saberes
querem com avidez, duma vez e várias vezes
 os sabores e as carnes,
não discernem  quaisquer cernes,
deixam vazios as lacunas, as alternativas
me levam a loucura com borrões,
fazem valer os meus tostões
e avos que ganho com cada fração, frases e freios...

sem luz, iluminam silêncios:
tabulas rasas, rasos e profundos ;
são fábulas que desistem das uvas
por não terem luvas
nem a disposição de subir;
anjos, filosofam
pedem colo, esbofeteiam
dão beijos e brigam,
professam, anarquizam, obedecem
choram...

ainda sim estão a me enlouquecer,
a cadenciar algo em suas cadeiras,
estojos, estorvos e pretensões:
grafites, deixam marcas
tintas, fintam olhares
em busca do desafios,
urinam mais do quem suam,
somem sem desmedir:
lá estão, sentados
futuros dizendo presente ,
anotando linhas, traços,
um troço de conversa
num blá-blá-blá infernal, sem fim
sem ponderação, gastando salivas e alívios...

assobiam, jogam papel
voam num avião de papiro,
se sujam, se lambuzam,
fazem do chiclete seu emblema,
das cenas, o seu drama...

não se enganem: sabem seduzir
são feitos de enxofre,
emanam celestiais culpas,
se inocentam num dizer mais sussurrante...

se prende no que diz,
infante, ainda aprendiz
da vida só sabem o instante,
não pensam em antes ou durantes,
tudo dura o efêmero,
o mero acaso,
não permeiam o esmero...

VÍCIO DE VINICIUS



Pros 100 anos do grande Poetinha, Vinicius de Morais... Saravá !!!

lá vem o Poetinha a nos encantar,
com seus doces versos de embriagar
fazendo da vida algo por sorver
e ver em cada mulher, um labirinto a se perder...

amar a lua, boêmia e branca
de ancas negras, sensualidade e trança,
ondas do mar como uma dança torpe
o tempo quando,  quarando quereres...

sem você, Poetinha
o mar perde seu azul,
os calçadões, a sua bossa
o violão fica sem bailado,
e tudo mais, sem encanto...
o canto mais mudo,
o mundo mais senil, abstêmio
o copo de uísque, perdido,
torna-se um vazio cheio de ar...

mas na cadência do lápis,
no bamba dos versos,
vício de Vinicius,
vontade de emaranhar-se em seu mar,
em seus artifícios,
sabendo que assim você é imortal, posto que é chama
lendo e sorvendo de seus prazeres,
de suas carnes, de seus seres,
sendo a sede, água de beber
sendo a fome, olhos da amada

estrela que trela inquieta,
ouvindo sua voz pacata e rouca,
poeta, Poetinha, vagabundo
se todos fossem iguais a você ?
não, será único
eterno como ternas tardes,
ou como a noite que arde,
como o poeta diminutivo de carinho,
viniciando nosso instante de estar.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

SAUDADES DA MINHA AMADA


Num trecho Vitória da Conquista-Feira de Santana...

O sol se põe - veja da janela,
caminho sem meus pés,
saudades da minha amada...

Revejo o que vivemos,
não há prismas:
apenas meus olhos fechados,
embebidos de lágrimas e falta,
saudades da minha amada...

A noite adentra, mansa
tenho agonia de chegar;
cá dentro, uma agonia descomunal:
saudades da minha amada...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

(RE)VOLTAS


não me leiam, não me leiam !!!
sou lavagem de porco, excremento, lixo, bosta...
não me leiam, não me leiam !!!
minhas palavras não merecem um like, um conto furado,
um post bendito, nem ser paradidáticas de postes,
nem uma reprodução em caderno de moças, nem uma recital banal,
não merece uma fala, uma cala, um samba,
um comentário tão breve, uma greve de Estado,
nem mudança de estado, nem gelo ou gás...
nem críticas do Tas, nem uma tarja qualquer,
nem lápide ou discurso,
não mereço mais nada
não me leiam !!!
não me leiam !!!

não leiam meus esboços, meus esforços
meus fundos de poço, tudo o que faço
não leiam, não leiam...

escarrem no que digo,
esporrem, esmurrem,
apedrejem, multilem
não leiam, não leiam...
esquartejem meus ditos,
linchem, castrem, cortem-lhe os pulsos
enforquem, vomitem
urinem, caguem
arrotem, faça tudo de mal
chicoteiem, amaldiçoem
lhe neguem abrigos, façam-lhe eutanásia
lhe causem azia, uma ânsia, uma amputação
queimem em praça pública
todas as suas túnicas, sua nudez,
sua mudez recolhida, seu grito de pranto,
causem-lhe espantos, espanquem, desbotem
tirem sua casca de ferida,
apodreça na vida, abortem e decepem
não leiam, não me leiam
me esqueçam no vão escuro,
lhe façam mil furos, chagas e pragas,
atropelem, infernizem
baguncem, envenenem
não me leiam, não me leiam...

cá estarei escrevendo,
ainda escrevendo,
serei masoquista do agouro,
não deixarei minhas linhas,

estarei aqui, me leiam
estarei aqui, me leiam...
estarei aqui, me leiam...

O SUBORNO DO GATO



E chega o torpedo do homem. A namorada está deitada, o gato em cima da sua barriga. A preguiça, a distância do aparelho (quiçá até a sua não localização), o ronronar do felino... Como é felpuda, pelúcia e gostosa cada partezinha do animal, o pêlo espesso, as ações e contrações do bichano... A namorada pensa: “tenho que responder...”, “tenho que responder...”, “tenho que responder ?!”, e o gato a andar gostosamente por entre o corpo dolente da moça. “ah, vou deixar pra depois, daqui uns minutos, uns minutinhos, não demoro, daqui a, ahhhhh...”, o gato esfrega e espreguiça-se na área quadrada daquela que deveria ser do homem, homem distante, pinta o grilo: “ah, devo torpedar, ele espera resposta, devo ahhh... pára, bichano, pára...”. Ela fecha os olhos como num flash, fecha-os num flash, parece enxergar mesclado a realidade e o sonho que virá... Um mosquito macunaíma, o sofá tá bom demais, verões virão mais tarde, deixa-os...
Chega o segundo torpedo do homem. Pelo curto tempo entre ambas, certamente é grave, a namorada têm que atender, o gato suborna-a com carinhos e jeitinhos, meiguices e patinhas ajeitando uma cama invisível pra dormir. Cai uma chuva, ela percebe pela janela, tudo é propício prum princípio de sono, um sono sonar, nana neném... Ela boceja, arregala os olhos querendo ser mais forte que a malemolência, o gato lhe faz uma massagem inconsciente e natural, “se ele torpedar de novo, eu respondo...”
O homem torpeda pela terceira vez. Aquele barulho do celular se torna martírio, tudo está bom demais: o gato, o sofá, um dormir... “é, posso dormir e aí terei um argumento... não, não é justo enganar o menino, ah meu homem... deixa de ser chato e se entregue a beleza desta fleuma, desta lombra...”. Falou isto e pensou em enrolar um bagulho, fritar um nugget, mas este maldito e delicioso gato, esta gastura, esta gostosura, este gato andando pelo mapa que agora ela era... de repente se encomoda: “se não chegar mais torpedos é bom... mas isto pode significar que ele está puto comigo... ou que se cansou e resolveu sossegar, o que é bom... será que bom mesmo ?! Ah, gato danado, saia... gato gostoso, saia, não não, fique... ande mais, massageia-me... massageia-me como as mãos do meu homem, assim... ele ficará feliz em saber que pensei nele nestas horas... mas como ele vai saber ?! tenho que torpedar, Cristo me dê forças, ah que delícia...”. No seu segundo bocejo chegou, em segundos, o quarto torpedo do homem... mas podia ser da operadora de celular... ou da irmã, dum amigo, uns daqueles golpes que promete mundos e fundos... não, certamente era dele, tava no horário, não sabia as horas, o tempo, seria boa noite ?! O gato resolve dormir em seu dorso, a namorada pensa e repensa: “vou, não vou, santa preguiça, meu Deus !!! Ai, dá pra tirar o gato bem de leve, ele nem vai acordar...mas tá tão ótimo aqui, pregui...”. Mais um quinto torpedo e seria uma guerra !!! Mais um torpedo...
“não, tenho que atender mesmo...” e o números de “es” acompanhou o seu próximo sossego, os olhos mareavam, Morfeu a chamava, o mofo, a chuva, o frio, os pêlos do gato... o apelo agoniado do homem, o drama que fará, arma do amar ?! não quis pensar em poesias ou teorias, queria uma hercúlea força de vencer as manobras desta moleza... e então dormiu...

sexto torpedo do homem...

sétimo torpedo do homem...

último torpedo do homem...
ela acorda com o corpo virado, contorcionista ao estilo possuída de “O Exorcista”, baba escorrendo, olhos com remela... olha pela janela, não sabia distinguir lua ou sol, o gato já saíra de sua barriga, agora dormia num canto quente do quarto. Lembrara que sonhara com vôos, sorriu e levantou espreguiçada... mexeu o pescoço tentando estralá-lo, estralou também as mãos com leve facilidade, olhou um canto e outro, colocou suas havaianas e foi ao banheiro. Fez suas necessidades, tomou um banho gelado, lembrou-se dum trabalho de faculdade neste período e apressou na escovação dental. Penteou o cabelo, olhou-se no espelho, passou desapercebida pelo celular...
coçou a barriga do gato, a sua própria, trocou de camisa, destrocou-a por achá-la inapropriada, pensou em ver as horas, mas censurou-se num “não sou obrigada”. Sentou na cama, observou a bagunça, ligou o computador e pôs uma canção das suas favoritas. Cantarolou alguns versos, riu sem saber do quê, lembrou do homem... tinha algo que devia lembrar, seria o homem ?! o gato acorda, sobe em sua cama, adestra um carinho, ela responde com sua mão destra, disse-lhes mimos e rimas tolas, espanta-o logo depois com um “xô”. Ao pensar no trabalho acadêmico, lembrou do celular: “putzs, o celular...”, e levanta sem calçar as sandálias, procura-o dizendo vários “deve estar aqui...”, encontra chaves, um bloco de anotações, lê um recado do amigo de apartamento dizendo ter ido comprar algo no mercadinho, uma filipeta sobre um curso de informática... acha o celular, se assusta com tantas chamadas, lê a primeira, rapidamente a segunda, um pouco com desdém a terceira, pula a quarta – já deduzindo repetições de assunto -, abriu e fechou logo o quinto, desistiu no sexto... pensou no que escrever, seria breve mas sincera, como sempre fora... lá fora fazia calor, abriu a janela e sentiu o mormaço seco entrando como bafo, falou um palavrão, olhou pro visor, parou no meio da palavra e deixou tudo para amanhã.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

AFLIÇÕES


aflições,
aflitas ações,
convulsões neste não saber...
tão sedento de você,
ser redentor deste caber ,
acabar com o doer
que silêncios e falta de escribas
venham a trazer...

...do drama que faço,
do karma que destino,
o circo que armo,
a arma e o tino,
piegas palavras que prego...

ter a surpresa do toque,
terei então a premissa de que você está
e assim, não há nada que eu troque:
nem rock, nem níquel
nem o nível maior de insanidade,
nada na cidade é mais valioso
que o traço gostoso do seu tom,
a mudez  que sua palavra me diz,
miudezas que me ofertam riquezas,
certezas que o dia será verdadeiramente bom.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ESPERAS




Pra saudades e esperas da minha amada...

te espero no vão,
te espero em vão,
o vão dos meus vazios se vão,
ouvirão,
virão verões,
vãos e vem, meu bem...

te espero à mão,
nos nãos e nas ânsias,
na distância e num ventar,
no inventar inverso, o que levará...

te espero com esmero,
meros espasmos, pasmo e calmo
tremor amar, cativo vai
sem ai ou ia, sem companhia
te espero e quero,
suar da sua
alma nua,
acalma lua
lama cama de sumir...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

PASSADEAR


Pode parecer clichê,
sentir saudades do que não se viveu,
num fiar a crochê
saudosista do inédito...

um cheiro de mofo
no novo olhar,
a retina se faz sépia,
desfaz photoshop
um ponto, um conto
um canto a se contar poeiras,
no moderno teletransporte
ao eterno retorno...

velho novo,
grisalho ovo,
rugas zigoto,
moto-contínuo, primeiro motor
voltar ao que não se viu,
serviu, virá
virar a página,
vide a vida,
vide (in)verso...


sábado, 17 de agosto de 2013

PARADOXO ORTODOXO



Quando o frio aquece,
e a memória esquece,
um luar solar...

E o que tece
apetece,
ajoelha e reza,
preza pela paz mordaz
da presa...

Sou um paradoxo ortodoxo
de mim, um instante cativo;
ativo sativar:
é quando sou asas.

Minha alma, um soul
um choro, canto
cantando o que há por catar...

Cato cacos
sou asco, fiascos faíscas
feito flash, flecha e isca
corda bamba no qual se arrisca,
risco nas palavras tortas do que não se vê...

Nada enfurecido,
um som num megatom
de vazios e silenciar.

terça-feira, 23 de julho de 2013

SERENAR


Pra Bu 

venha serenar minha noite,
sereno açoite não me acalanta mais,
sem você sou tormenta, pesadelo;
é o apelo da pele sem seu tato,
contato-contrato com minha menina,
o peso dela em minha rotina...

e na retina, ela serpentina
rodopiando num ar de carnaval,
sem saber de repente,
num cirandar da gente,
seu encanto sem igual;
serenando o choro cantado,
um canto de choro, bandolins a tocar -
trocar o instante pelo bastante,
o barbante pelo coração batido,

seus beijos por mais beijos seus... 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

ÓTIMO DIA PARA PERDER AS CHAVES DE CASA

Levemente inspirada numa situação que aconteceu com minha Bu...

Colocou-as bem no fundo da bolsa – afinal alertara o horóscopo: “Ótimo dia para perder as chaves de casa”. Tinha trauma disto. Afinal, já perdera mais de uma e sabia o quão chato era todo aquele lance protocolar de chamar chaveiro e cadeados... Ia sair de sua moradia sem um porquê aparente, talvez visitar uma amiga ou procurar um novo apê, mas sentia arrepios e um aviso de que não deveria ter saído dos cobertores. A manhã estava fria, ótima pruma sessão Hitchcock ou simplesmente divagar, nua, poemas em seu caderno de anotação....
Resolveu, contudo, sair – sem antes conferir pela enésima vez se o molho de chaves estava ou não no canto posto. Sim, estavam... Sorriu como um smile de rede social, passou seu batom mais vermelho, mandou um beijo pro reflexo do espelho oval do banheiro, onomatopizou algo e trancou a porta. Esperou um tempo no ponto, pediu ônibus, abriu a bolsa pra entregar as moedas ao cobrador, apertou com força as chaves. Observou a paisagem, o passageiro ao lado, o pastor que pregava apocalipses, leu cartazes e outdoors... Desceu, pagou no cartão uma blusa que paquerava à meses, tomou um sorvete, depois um outro, salivou por um expresso, desistindo logo em seguida... Caminhou pela galeria, olhou vitrines, admirou o violinista que se apresentava na praça de alimentação, atendeu o telefonema de uma amiga, reclamou pra si própria dos preços e, abrindo a bolsa, tentou tatear pelas benditas chaves. Lá ainda estavam, aliviou-se rindo por ainda crer em oráculos de pasquim...
Distraiu-se, desencanou durante o dia todo: nem lembrara do que fizera, tinha divagações e ria daquilo tudo. Tudo é tão corrido que os momentos passam como flash, como quem aperta o botão de acelerar de um DVD... Na volta de casa, ainda pensou em adotar um gato que vira vadio pelas ruas. Contudo policiou-se, lembrando das proibições da sindicância de seu prédio. Sentiu pena do indefeso felino, fez-lhe um carinho, pensou batizá-lo de Jim e mandou-lhe um tchau, denominando-o assim.


Chegou estafada em casa – ninguém aguenta congestionamento e ônibus lotado. Como selvagem urbana que é, reclamou da metrópole e sentiu saudade de quando era a filha de alguém e não mero número de RG... Enfim chegou no prédio, saudando o porteiro que conferia os resultados de jogos de azar no chiado de um velho rádio a pilha. Apertou levemente o 6, tendo que acionar novamente o botão prum melhor funcionamento. Pensou numa nova combinação pro batido Miojo de jantar, talvez mais cebolinha, açafrão talvez... Chega no andar, de frente pra porta, soltou ar pela boca de alívio, meteu a mão na bolsa... Espanto, desespero, um vasculho mais incessante, sudorese na testa: onde foram parar estas malditas chaves ?! Acocorou-se e despejou todo o conteúdo da bolsa: celular, kit de maquiagem, filipetas recebidas de anônimos, recibos... Nada das chaves !!! Olhou novamente pra toda aquela bagunça minunciosamente, concluindo enfim aquela repetida ordem. Quis chorar, chamou-se de besta três vezes seguidas, tentou não descontrolar, mas descontrolou-se. Espancou a parede, encostou-se nela, intuiu que deveria haver algum gnomo nefasto que rouba chaves sem mais nem porquê... Perguntou-se como aquilo ocorrera, como mero ou meros instantes de distração poderiam ser tão decisivos pra tal sumiço. Pensou em repetir o processo e conferir reconferir ad infinitum... Chamou-se de besta novamente, adjetivando-se mais e mais com outras nomenclaturas e palavrões. Cambaleada, dando-se por vencida naquele martírio, aportou-se em via crúcis na casa de um vizinho amigo de longas datas. Amanhã seria aquela enfadonha burocracia de chamar chaveiro e cadeados... 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

PRETO BELEZA



Pra Yberê Marques, irmãozão da minha Laís Atanázio, aquele que faz Bu sorrir, gente finíssima de quem tenho grande estima, carinho e (fra)terna amizade... Abraços, Preto !!!

Nosso Pretinho básico,
o Preto que satifaz,
ouro negro, tesouro de ser
todo querer, ébano gris
a cor da cor, coração,
black power realeza,
um Preto beleza...
cara, o cara
dávido, ávido, raro..
caro amigo de todos,
pra todas as  horas e dias...
pra sadias saídas, pras caídas cortês,
siamês do meu amor,
a parte yang que não pode faltar,
o riso fácil, irônico
o tônico do nosso gritar,
a essência do essencial...

Preto alegria,
Preto estar,
star glamour, lua do luar
sua magnitude humilde,
lutar pelo ofendido,
não deixar roupa suja,
o piado da coruja,
nas piadas de bar...

Preto maravilha,
Preto beleza:
nos etílicos, nos prólogos
nos diálogos, nas resenhas
na boa história, no humor negro
na língua ácida, no bom elogio...
na elegia, na dança, no passo...
no passatempo, no tempo...
gato Preto que não dá ziquizira,
a sorte que se atira
numa moeda de desejar...

Preto amigo,
homenagem minha,
singela, pequena, com carinho...
só pra lhe dizer em outdoor
de toda admiração que tenho
pela pessoinha que você é...


sexta-feira, 28 de junho de 2013

MACIEIRA EM FLOR



A gravidade os uniu. Contudo, muito mais do que leis newtonianas, fora também uma mera maçã, em tão reluzente rubro e de apetitoso sumo, que haveria de abrir caminho para os primeiros olhares entre eles - tinham onze, no máximo doze anos... Guida era cabocla bonita, vestido de chita rasgado na barra, um dente a menos por sorrir... Já tinha brotos seios e cintura em contorno. E estava em cima duma macieira em flor, melindrosamente sem suas calcinhas... Ele, filho do capataz do roçado, não sabendo como cumprir suas obrigações de ajudar na proteção daquela propriedade, observa num acanhamento sacana tudo aquilo que a ocasião lhe propusera. Não entendia aquelas reações ora orgânicas, ora maledicentes... Então uma maçã escapole dos dedos da menina, atingindo pitagoricamente a cabeça do garoto. Os dois então se observam, ela com um olhar de medo e angústia, ele sem saber se estava embaraçado com a cena antes vista ou se deveria dar-lhe alguma reclamação pelo delito. Pareceram então combinar um segredo, uma cumplicidade moleque: ele fraternalizou-se, ela sentiu-se segura... Pegando as maçãs caídas do chão, ele as põe no pequeno alforje que sempre carregara. Tinham feito um acerto sem palavras, hipnóticos por alguma maldição muda, levados por um frio na barriga que não sabiam o porquê... De repente, uma ordem ao longe e ela, ágil como um calango, desce da árvore e, segurando o punho do menino, faz-lhe acelerar também aos gritos de “corre, corre, corre...”. O coração do garoto era um misto de aceleração pela corrida e pela excitação do tudo vivido. Esconderam-se na entrada duma lapa, ambos ofegantes e suados. Riem e contabilizam a quantidade de frutos roubados. Ele perde a concentração da contagem, sente-se apaixonado pelas sujeiras no rosto e pelos joelhos ralados de Guida. “Vi que tu tá sem calcinha...”, diz engasgado. Ela pára a divisão e apenas o observa, paralisada... Dá um sorriso malicioso e abaixa o rosto. Ele pega um graveto e risca algo na terra batida... Ela, antes acocorada como o menino, levanta-se, limpa uma parte do vestido e diz: “ontem eu vi um boi montado numa vaca...”. Ele engole seco, tenta salivar, cospe em cima do desenho, olha aquilo e responde um “e é?”. Ela se aproxima dele, põe-lhe a mão no braço e diz próxima ao ouvido, como num segredo: “meu irmão me disse que eles tavam fazendo filhote...”. Sentiu um arrepio, um medo, algo que não sabia explicar. Era bom, mas não conseguia decifrar isto. Respondeu um novo “e é?”. Ela põe-se de pé novamente e dá um leve rodopio, nada muito obsceno, o suficiente apenas para levantar de forma cândida a bainha. “Pai e mãe também fazem isto...”, diz Guida. Ele apenas morde uma maçã, observando-a. “E seu pai e sua mãe também devem fazer...”, “deixa de conversa besta...”, branda forte e num supetão o garoto, arremessando a fruta contra a parede da gruta, dando pra ouvir ao longe o ecoante murmúrio. “tu gostou de ver?”, ela pergunta. “ver o quê?”, “o quê cê viu... eu sem calcinha...”, diz Guida, alisando uma ponta de mecha de cabelo. Ele não sabia o que dizer, gaguejava num balbuciar errante. “tu quer ver de novo?”, diz aproximando-se dele. Ele sua, zarolha o olhar, procura um foco, olha pra cabocla e sente seu acre hálito. Aquilo o excita e o apavora, asco e desejo num arrepio doce... Ela repete, “quer?”. O garoto se afasta dela, anda em círculos, não sabe a resposta pro que ele entende querer... “pois eu te mostro se tu mostrar o seu...”, declara Guida, em ultimato. Ele vira o rosto como herói de velho-oeste ao saber que sua mocinha fora sequestrada – embasbacado, baba num quase choro. Sentindo-se num drama shakesperiano (mesmo sem nem cogitar saber o que é isto), retrucou em retórica: “cê me mostra se eu mostrar o meu?”. “Foi o que disse...”, respondeu e logo, sem nem esperar reação do outro, “ah, sou curiosa pra ver um de perto... nunca vi”. Achava cinismo hediondo ela falar aquilo tudo com um sorriso desbocado, amoral e santo ao mesmo tempo... “tu mostra mesmo?”, diz enraivado. “Se tu mostrar o seu...”, bem lânguido e com certa inocência... Acabou concordando, fizeram uma contagem regressiva muda e fizeram movimentos contrários: ela levantando sua saia, ele baixando seu short. Ficaram desnudos de tal forma por alguns segundos, um seguindo o olhar do outro, analisando suas genitálias, vestiram-se rapidamente diante seus pudores. É quando se ouve ao horizonte a voz do capataz, esta cada vez mais se aproximando, se aproximando... “Ah, cês tão aí... Muito bem, Salvador, pegou a ladrona...”. Era a primeira vez que Guida ouvia o nome daquele garoto, nem ligou tanto para a acusação – era o ressoar do chamado do menino que lhe ganhara contornos de um clamar angelical... Então o capataz agarra-a forte pelo braço, bradando alguma punição de imediato. O menino, porém, logo intervêm “não, pai... eu já dei a pêia que ela precisava...”. Se fazendo de entendido, o capataz solta Guida, deixando-a ir num certo estado de quebranto. Salvador, na companhia de seu pai, observa-a afastar, cada vez mais distante se desfazendo, a imagem diminuta, o engasgo, a lembrança... Febril, pensou que nunca ia esquecer ela. Esqueceu-se...   

segunda-feira, 17 de junho de 2013

PRUM NÃO CALAR



Um grito poético duma calada voz...

De punhos fechados,
um grito pranto, alto
o sobressalto do acomodado,
o incômodo que se alia,
abraça, se une no ideal
do pão para meu irmão,
da decência para meu país...

a mão erguida,
o cartaz dizendo não,
um clamor maior que o gás,
a vontade de milhões...

o calar do rei
o chacoalhar do trono,
o tremor das medalhas...
não são apenas vinte centavos:
é toda uma nação que chora
por sua parte suprimida,
pelo direito roubado,
pela promessa desdita.  

E quando o povo se revolta
não tem volta não, marajá:
é preciso assistir, temer,
tremer em suas bases,
não dizer qualquer frase ou pio –
nem tente sair com suas asas de cobre,
de mansinho, num assobio:
é a camada mais pobre
a acender um pavio
e explodir um Brasil antes senil,
agora renascido fênix
prum novo pôr-do-sol que já surgiu.




terça-feira, 11 de junho de 2013

LED ZEPPELIN NO FONE


Manhã nublada, tudo lateral e literal...

se eu ensurdecer
que eu ensurdeça de música;
e que me perca ávido
dos desvios que o som me leva,
pro alcance dos sonhos,
numa onírica sinestesia insana...
se eu cegar
que eu cegue de arte;
e que chegue, parte a parte
a textura e a lisura das delícias –
cores, versos, universos, dores...
e que a pane dos meus sentidos
seja pano de fundo pra algo maior, profundo
como um inconcebível deus  que não dança...
se eu emudecer
que eu emudeça de beijos;
de cândidos e cálidos abraços,
de braços, mãos, tato, paladar...
da língua etimológica dos amantes,
do falar dissonante,
do acordar sem acordos,
da corda mítica,
do cordão que nos une umbigo
eu contigo,
você comigo...  

se eu for,
que eu seja tudo;
Led Zeppelin no fone:
fome de mim, auto-antropofagia.
No dia que não sorria,
o mundo ficando menor,
invisível, intransponível...
mergulho no interior de um eu que não se mostra;
da ostra que sou,
do calado alado
que voa sem tirar pés do chão...


AO CONTRÁRIO DA CECÌLIA


Escrevo porque instantes inexistem,
e completar-se é algo desbunde,
a hora mágica, oracular –
numa oração profana,
meu corpo precisando de uma chave,
duma clave prum lá qualquer
meu corpo nu
só quer uma força, um nó...

um abraço quente
como uma arma beatleniana - saia do meu ser
Oh, corpo nefasto !!!
Que vem em forma de verso, inversos
todo inverno num universo,

Vesgo, rusgas ou fugas dum momento só mar... 

sábado, 8 de junho de 2013

DOZE ANOS (DESATADO NÓ)



Eu, pobre balzaco
antes desbotado, fraco
cambaleado por tiros que vida dá
desgostoso de dissabores,
dissonante à deriva, sem cores
entregue a dores e chagas,
sem atos, desatado nó...

até que ela veio,
doze anos a menos,
amenos olhos que me acalantou,
nortendo o caos do meu soul
tornando-me blues, tecnicolor,
um sorriso inciso, cortando minhas rusgas...
não importou-se com minhas rugas,
calou-me a boca
entre mil argumentos,
fazendo-se de mouca, dizendo-se velha e louca
sem importar com números de documentos...

diferença não há
quando somos
soma:
mãos a se proteger,
entrelaçando dedos, afastando medos,
a segurança que sinto em cada contínuo aprender,
no me prender em seu corpo, no seu tragar
no seu trazer,
no ser que se mostra,
mulher que me adestra a cada prazer...

e assim doze inexiste,
não se percebe, se esquece:
amar não tem idade, nem sanidade
amar acompanha todos os ritmos
todos os sismos que sinto

quando você está... 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

NO MEIO DO CAMINHO, PASSARINHO




"Lovemente" inspirado em Drummond, Quintana, Tom e no bom humor dos poemas de Adherrio Laiss, grande mestre...

no meio do caminho
havia um passarinho
deste bem filho da puta
que cagou no meu colarinho...

e a pedra atravancou então
o atravessar de todos que aí estão,
pedras existem, mas ainda passarão:
no caminho, bem no meinho
sempre existirá aquele passarinho,
deste bem filho da puta
que cagou no meu colarinho...

fim do caminho:
enfim cheguei pra ver Flor Rosa;
esta deixou-me entrar, toda garbosa:
se faz de rogada,  
fingiu assim, calada,
não ver tal mancha em meu colarinho...
mas mediante acre odor,
recusou-me amor,
abortou-me carinho...
mandou-me de imediato embora,
sem ouvir hiatos ou emboras,
nem das traquinagens do passarinho...

fim do caminho, caminho...
arranjo pau, escolho pedra
faço bodoque pra dar cabo
da vingança acabo mero objeto...
encontro seu ninho,
atiro meticuloso 
no desastroso cu do passarinho
que sujou-me com seu dejeto...

de um resto de toco
deixo-o bagaço, oco
armo assim meu troco
pro pobre bichinho...
que deixo-me em caco,
tristinho, asco,
um pouco sozinho...

terça-feira, 30 de abril de 2013

NOSSA BALADA


 

"Vamos onde ventar, menina/ Foi bom te encontrar lá em cima/ Odeio despedidas/ Mas tudo bem/ O dia vai raiar/ Pra gente se inventar de novo..." (Cícero, Tempo de Pipa

é quando as horas passam
e sua falta abissal aperta,
saudade a bater na porta,
dor, a gotejar, também desperta...

latejando seu licor ricino,
fazendo chorar num incolor desmedido,
alucinações a brandar seu hino,
cambaleado, entrego-me baleado e vencido...

é tanto chagar que choro mudo,
lágrima íntima, interna, cancerígena:
queria seu corpo, tragar seu copo, cinzas, tudo...
estar contigo, numa transmutação alienígena

mas cá estou, meu quarto vazio
minha cama sem seu amarrotar,
minha cadência sem seu quedar,
neste amarrar sem estágios, sem ágios,
tudo sem nexo, doidivano... 
como queria você aqui !!!

quarta-feira, 3 de abril de 2013

LIBERTÁRIO


não sei dirigir;
mas só a mim compete gerir
minha vida no meu girar,

e neste constante digerir ruminar,
se adultificar infante... 

terça-feira, 2 de abril de 2013

SAUDADE DE SÁBADOS E PRAÇAS



Pra bons momentos nas praças de Irecê (BA) e Vitória da Conquista (BA) 

saudade do seu sorrir,
do seu silêncio,
do seu olhar que parece desdenhar
ou desenhar algo com as pupilas...

saudade do seu vigiar,
do vigiliar meu sono,
dos átimos átonos,
do viajar em minha voz,
de atar nossos nós,
de assobiar atroz, atriz
que nada é obrigado...

e no meu andar chapliniano, embriagado,
saudade de sábados e praças,
de cheiros, gostos, gozos, fumaças,
contar, ouvir, ver, rever, reversos e nervos...
saudade do resenhar, dos amigos,
sons, tons, mitos, litros,
compras, pombas, pontas, patos, atos, plantas,
uma manta improvisada de bandeirolas e sonhos...
saudade do violão, dos cantos e do cantar,
das luas, dos sóis, dos sais,
do limão, das guimbas, das cachaças seletas,
das setas, metas, métricas,
líricas, pés, arrepios,
meios fios, calçadas, sombras, sobras, raspas e restos...  

saudade do seu beijo, seu abraço,
seu laço, do suor da sua mão,
do seu ser, seus sabores e saberes,
do seu cabelo, do nosso unir. 


COM O TEMPO (APODRECER)




“O dia das pêras
é o seu apodrecimento.”
(“As pêras” – Ferreira Gullar)

minha vida, eternas esperas -
como pêras gullarianas
que apodrecem com o tempo...

ou como o peraí contido,
o grito não dito pelos desditos,
pelos mitos contados
de que somos menores,
tenores de um uníssono mudo:
de que não adianta querer mudar o mundo,
de que tudo já é pago por juras e juros,
de que a segurança dos nossos muros,
o taciturno noturno de nosso ego:
o osso cego de nos garantir
abrigos ou aconchegos.

nesse podar do pousar de nossas asas,
apodrecer assim nosso poder...