terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O INÙTIL

E lá vinha o inútil. Caminhava placidamente pela casa, já eram onze da manhã. Acordava com o apitar da panela onde se cozinhava o feijão. Tinha 38 e um três-oitão guardado numa caixa. Nunca casara e nem apresentava suas namoradas ou casinhos. Cultuava uma barba e gostava de Vivaldi. Morava com a mãe, uma senhora de cabelos violetas e que mancava de uma perna. Esta ficara viúva não tinha nem dez anos. Desistira de usar roupas em luto e arranjou um romance. Vivia há nove anos com um gajo. Na verdade mantinha-o há mais de quinze, num mister de adultério conjugal e fantasias sexuais.
E lá vinha o inútil. Tinha um curso de graduação, mas por opção não trabalhava. Acreditava no seu talento medíocre de ser um poeta. “Dos parnasianos...”, declarava com o lápis em haste. Já publicara alguns em pasquins sujos, muitos com o pseudônimo “Arlequim tosado”, título de um de seus versos. O padrasto achava que ele era pederasta apenas por se declarar poeta. E o inútil sentia ódio do cara, por isso tinha o revolver guardado entre seus materiais pornôs.
A mãe insistia para ele fazer um concurso público, aulas de inglês, uma droga qualquer ! Mas aquilo quebraria a rotina vadia do inútil. Gostava de dormir muito tarde e acordar mais tarde ainda. Na casa havia um computador. O inútil passava horas na Internet. Sempre bebia uma Coca enquanto isto. Curtia navegar na web, o mundo virtual era uma redenção para o pecado da preguiça: sentia-se feliz enquanto mexia por páginas de chat e sexo. Escrevia poemas pobres para garotas que ele nunca vira. Algumas gostavam, o que lhe garantia encontros. Em poucos rolava transa, mas por todas ele sentia um pouco de platonismo. O padrasto jurava que ia matá-lo um dia. O inútil não via a hora de encravá-lo de balas...
“Isto não pode continuar assim...”, reclamava o padrasto.
“E o que eu vou fazer ?!”, dizia a mãe, enquanto limpava a mão num pano de prato imundo.
“Ué, tu é a mãe, não é ?! Acha um troço aí pra este merda fazer...”
“Ele é artista...”
“Viado, isto o que ele é ! Viado !”
“Não, ele é poeta. Já me fez uns versinhos tão bacanas...”
“Poeta o cu dele ! Este vagabundo tá é buscando respaldo pra vadiagem dele...”
A mãe ficava quieta. O padrasto acendia um fétido cigarro. A conversa era a mesma desde o dia do retorno do vadio. Fizera sua faculdade fora de sua cidade natal, um canto tão isolado quanto tudo. Cidade de merda, gente de merda, pequena cidade que só tinha pompas ridículas e alcunhas mais absurdas ainda. Gostara da capital, as boates, os néons, a prostituta Amália com quem viveu uns anos... Ainda sonhava com ela, chamava-a de musa e para ela dedicava muitas estrofes. O inútil não se adaptou a capital. Sentia asma e saudades. Voltou para a montanhosa cidade pequena e seu fardo completou-se.
“Minha vontade é de dar uma boa surra de bambu nele...”, o padrasto retornando a conversa.
“Enquanto eu for viva ninguém bate no meu filho !”
“Tu é uma pulha ! Como é que tu deixa teu filho viver desta maneira ?! Sua rapariga, puta !”
Neste instante o inútil intervém, supostamente escutando toda a conversa:
“Tu cala a boca, seu maldito !”
“Digo é na tua cara, seu bosta ! Tu é um bosta, um grandíssimo bosta...”
O superlativo atinge o ápice nervoso do inútil e ele reage de maneira bruta. O soco sai de forma descarregadora.O padrasto cai, mas logo se levanta:
“Safado de uma égua, tu ainda vai pagar caro por isto !”
“Enquanto eu estiver aqui ninguém xinga minha mãe não ! Tá, eu sou um bosta ! Agora deixa minha mãe em paz. Vaza daqui !”
Agora a mãe aparece:
“Pare, filho ! Não fale assim com ele ! Tenho certeza que ele já se arrependeu de tudo o que lhe disse. Venha, meu marido, vou fazer-lhe um curativo...”
O inútil não entendia a submissão da mãe. Teria o amor tal poder de cegueira ?! Amália era justamente o oposto: graças a ela entendia melhor o mundo, a compreensão era uma expressiva filosófica. Amar não pode ser sinal de regressão. Aquilo não era amor...
Então o inútil entrava no quarto e ligava seu computador.
A mãe disca alguns números.
“Ela vai ligar para Constância...”, pensou.
Constância era irmã do inútil.
“Aquela vaca...”, conclui o pensamento.
A irmã tinha um emprego. Um honorário trabalho de datilografa, que a própria denominava de secretária. Todos sabiam que ela dormia com o patrão.
“Alcoólatra, piranha !”, volta a pensar o inútil.
O inútil gostava da versão de "Chão de Estrelas" que os Mutantes cantavam. E era esta música que ele escutava no momento. Abandonou a cadeira defronte a tela e pegou a arma.
“Tenho 38 e um três-oitão...”, imaginou isto como um começo de conto.
O barulho de seu MSN desvia atenção do revolver. A mãe bate na porta.
“Espera, mãe !”, e o inútil esconde a guarnição.
“Tua irmã vem almoçar aqui...”
“Aquela vaca, alcoólatra...”, pensou.
“Tu devia deixar este computador. Olha, comadre Izildinha me disse que o fórum vai abrir concurso ainda este mês...”.
“Tô cagando pra este concurso, minha mãe ! Cagando ! Eu sou poeta, sou artista, não nasci pra trabalhar em repartição pública...”
“Mas tu precisa fazer algo na vida...”
“Tu vai dar razão pro canalha, é ?!”
A mãe senta na beirada da cama e afaga o cabelo do inútil.
“Tu tá a cara do seu pai...”, diz.
“Cruz-credo ! Tô parecendo com ninguém ! Imagina eu parecendo com aquele safado...”
“Ora, menino, respeita o finado do teu pai !”
“Respeito merda nenhuma. A senhora sabe que ele era um safado mesmo. Um grandíssimo filho da puta !”
A mãe então se calou. Concordava com as palavras do inútil: sofrera o pão que o diabo amassou por aquele homem. Não que não sofresse com o atual, mas pelo menos deste ela gostava. Ou amava, sabe-se lá... Ela deixa o quarto, era necessário por mais água no feijão.
O inútil ficava a olhar a porta entreaberta, sua mãe a cozinhar, tão velha, tão capenga... O padrasto anuncia que vai sair. A mãe pede por sua não demora. Ao revelar que Constância viria para o almoço o padrasto logo mudou a fisionomia de sua retórica: decidiu por ficar e não fazer desfeita.
“Bando de sujos, pervertidos...”, pensa o inútil. Ficava indignado pela mãe não perceber que o padrasto mantinha relações com a própria enteada. Nunca pela irmã, mas sim pela idiotice que era o tal amor que sua velha sentia.
Meia hora depois, mesa posta e Constância aparece. Usava maquilagens vulgar e vestido em igual tom. Mascava chicletes, parecendo mais uma prostituta urbana que alguém de moral. Abraçava a mãe e parecia dizer palavras sacanas para o padrasto. O inútil não a recepcionou. Manteve-se na posição do computador, quis concentrasse na "As quatro estações" que pôs em alto som.Queria deletar aquele mundo. Queria esquecer a mãe, o padrasto, a irmã...
“E aí, ô inútil !”, Constância entra no quarto.
Ele não reage. Quis anestesiar-se de Vivaldi.
“Tu vai acabar morrendo disto ainda... Deixa este treco, vai arranjar algo pra fazer na vida !”, diz a irmã acendendo um cigarro. “Tu ainda vai matar a mamãe...”, conclui.
“Já falou tudo ?!”, o inútil esquece os acordes do violino e entra novamente naquela horda...
“Olha, seu imprestável: tu tem que respeitar nosso padrasto. Ele é o sustento da nossa mãe, será que esta sua cabeça não entende ?!”
“Respeitar este cínico ?! Tu só tá falando isto porque tu dorme com ele...”
A irmã solta uma baforada. Logo contra-ataca:
“Tu pára de dizer o que tu não sabe... Acaso já me viu dormindo com ele ?!”
“Não é preciso ver. Nota-se nos seus olhares. Só a mamãe que é retardada pra isto...”
“Será que tu não vê que ele é a razão da vida dela. Se algo acontecer a ele, ela se escafede, tá percebendo ?!”
O inútil não tira os olhos da tela. Sem pudor observa garotas nuas. Algumas crianças, genitálias de bebê.
“Argh, que nojo ! Tu devia ter mais respeito ! Como é que fica vendo estas coisas ?!”, diz a irmã após o trago e a subseqüente baforada.
“E tu devia respeitar minhas taras...”
“Além de louco e vagabundo, ainda é pedófilo !”
“Vai te foder, sua vaca !”
A mãe entra e pede, por Deus, que tudo aquilo acabe. Constância caminha e tira a mãe do quarto. Esta diz para o inútil que o almoço será servido.
“Estou sem fome. Tem mais Coca aí ?!”, foi sua resposta.

Enquanto comiam, discutiam sobre o inútil. Ele ainda estava no computador, agora sem a sua bebida. O padrasto sugeriu uma boa sova, a irmã uma clínica psíquica. A mãe apenas escutava, ora concordando, ora descrendo dos defeitos do filho.
“Ele é demente, mãe !”, disse Constância.
“Escuta tua filha ao menos desta vez, mulher !”, clamava o padrasto.
“Mãe, sabe a tal de Amália que ele tanto diz ser a musa dele ?! Pois esta não existe, é pura imaginação deste doido !”, a irmã frisava a última qualificação dada num gritar silábico.
“Ele é poeta...”, a mãe o defendia numa voz quase inaudível.
“Poeta a bunda dele !”, dizia o padrasto, “Poeta é Vinicius, é Drummond... Aquilo que ele escreve é esterco de quinta categoria ! Obra chinfrim !”
Nesta o inútil levanta-se e se dirige à mesa.
“Eu não sabia que um verme como tu entendia de poesia...”, diz.
“De poesia, não. Entendo do que é bom. E eu sei que aquelas palavrinhas que você escreve não passa de limpa-cu dos outros...”
“Sabia, mãe, que este imoral fica vendo bucetinha de criança na internet...”, intervêm Constância.
“A conversa ainda não entrou no puteiro...”, responde o inútil.
Mais que rapidamente Constância levanta e aponta a faca para o irmão:
“Repete, seu descarado, repete se você respeita este cunhões que tu tem !”
O inútil observa o reluzir da faca. O computador toca a "Barcarola Opus 60", de Chopin. A mãe pede clemências, quer a paz, pelo amor de um Deus que parece não habitar ali. Cai copiosamente num pranto em soluço.
“Viu o quê tu fez, seu inútil ?! Se mamãe morrer, eu te mato !”, dizia Constância dando assistência à mãe. O inútil entrava num alfa de luz e odores. Lembrou-se da infância em que se masturbava ouvindo música clássica: não sabia se aquilo era recordação ou invencionice, mas achou bonito a visão. Assim como, pela única vez na vida, gostou de ver Constância numa pietá às avessas: escorava a dor de uma mãe que parecia refugiada do mundo, descrente das felicidades, querendo apenas cicatrizar mordazes chagas...
A mãe parecia mais controlada. O padrasto não esboçou ação alguma: apenas usava um palito para sua higiene bucal. Constância sentou a mesa e juntou as mão em concha, logo levando sua cabeça ao encontro destas. Levantou o rosto e olhou para o inútil, dizendo:
“Tu tá precisando é de tratamento no hospício ! Você tá doido, pirado, entende ?! Esta puta que você diz ser apaixonado é alucinação tua, ela não existe !”
“Não, tu tá mentindo ! Ela existe sim, é meu amor, minha eterna musa...”
“Existe não, meu irmão ! Eu vasculhei, pedi ajuda a amigos pra encontrar a tal da Amália... Não há, você tá doido !”
O padrasto levanta-se. Tinha braços gordos e uma enorme pança. Usava uma regata cheia de manchas de graxa. Barba por fazer, um monstro de olhos claros e um certo loiro na calvície. E então se dirige para o inútil:
“Tu tá desmiolado, pinel, maluco ! Vai embora, ninguém te quer aqui não ! Tu mata sua mãe de desgosto, é isto que tu quer ?! Seu traste, inútil ! Não vê tua irmã ?! Empregada, ganhado seu sustento, sendo gente na vida ! E tu, o que é ?! Um merdinha que se diz poeta, um fracassado, um inútil ! Me diz uma coisa: pra quê este teu diploma ?! O que eu disse de sua poesia eu repito pra este teu diploma: não serve nem pra limpar bosta do mais vil mendigo !”, dizia buscando fôlego.
“Isto é um complô, mãe ! Este dois estão junto pra me destruir ! A senhora nunca percebeu que eles tem um caso...”, o inútil gesticulava insanamente.
“Mãe, eu não sou obrigada a ouvir isto não...”, tenta defesa Constância.
“Os dois tem um caso sim ! Mãe, me ouve ! Vamos fugir disto tudo. Eu prometo estudar prum concurso, faço cursos, me endireito... Me ouve, mãe ! Vamos embora !”
O inútil ajoelha-se ao lado da mãe. Pareciam dizer alguma linguagem muda, sem sinais ou visões. Estavam niilistas, embora nunca soubessem. O padrasto pega-o pelo braço com força:
“Olha, seu doido... Tu deixa sua mãe na paz da velhice, não queira pô-la em porra de aventura nenhuma ! Enquanto eu for vivo tu não tira minha mulher de casa !”
O inútil dirige olhares para mãe, esta submissa a toda ação. Não movia-se, uma paralisia que parecia um sim para a permanência. O computador emudece. Aquilo faz as pernas do inútil mexer-se. Caminha para o quarto, põe a "Marcha ao Suplício", de Berlioz.
“Desliga esta droga ! Vá ouvir música de pessoa normal !”, alguém grita do outro aposento. Ele não distingue a voz. Tira da caixa, que estava abaixo de sua cama, o 38. Coloca-o por entre a calça e sai.

“Não faz isto com tua mãe...”
“Não dá mais, mãe...”
“Tu é meu filho, é parte de mim...”
“Também sou parte sua...”
“Faz um esforço, fica... por mim...”
“É pela paz da senhora que farei o que será feito...”

“Vá logo, inútil...”
“Inútil...”

O tiro.

Um comentário:

Eduardo disse...

Grande Mestre Mateus!
Seus contos carregados de realidade e de finais "covardes" deixando os leitores imensamente curiosos.
Continue sempre assim!