terça-feira, 13 de maio de 2008

COINCIDÊNCIA DE AMAR

Como do nada, passo em frente ao quarto de meu filho do meio, catorze anos, cabelo de surfista, já com o dobro de minha massa muscular. E deparo-me com o próprio tentando pegar as batidas duma antiga canção do Roberto. Como num salto, meu coração disparou... Os acordes ainda desafinados de “As canções que você fez pra mim” me fez pensar que tinha sido esta música que aprendi tocar no violão para conquistar Élcia, a mãe deste marmanjo que agora se desdobra em aprender as mesmíssimas notas, errando na letra, indo e voltando no processo experimental de decifrar aquilo que o coração jamais traduzirá em batidas vãs.
A reminiscência é inevitável. Vejo-me no fim dos anos 60, muito talvez parecido com meu filho, estilão hippie, muitas vontades na mente e ideologias por seguir. Penso no quão bonito era ter sonhos, no tanto que eu era em ser puro... Seguíamos as ordens de Vandré, contudo sem perder a ternura jamais. Rio baixo, observo meu filho. Ele também me vê. Ficamos em silêncio por um instante, porém dizendo muitas coisas que não falaríamos se tivéssemos voz....
Aproximo-me dele, sento em sua cama e dou-lhe um beijo na face. Ele ainda me observa, agora com um olhar curioso. E então dedilha algo tênue, um mínimo de toque e pára. Suspiro e pergunto como ele está. O cotidiano não nos permite momentos como estes. Ele responde-me que vai bem, mas que está com dificuldades em pegar a música no violão. Retruco perguntando o porquê de tal interesse em tocar exatamente esta. A resposta é instantânea: “Ué, pai, porque achei bonita...”. Afago-lhe os cabelos e questiono-o se não haveria um segundo interesse. Ele sorri envergonhado, baixa o rosto em direção ao violão, e logo diz que sim. Não pergunto o nome da garota, mas ele me adianta de que ela era muito bonita, a mais linda do colégio, quiçá do mundo... Ah, esta verve dos apaixonados !
Peço o instrumento, coloco-o no meu colo e antes de ensinar as técnicas certas, ainda observo meu filho. Vejo o quanto ele cresceu e o quanto eu envelheci. Percebi o quanto é bom tudo isto. Meus cabelos não se parecem mais com os dele, já tenho rugas e muitas histórias guardadas nos baús dos tempos. Contudo, encanto-me em ver que nosso olhar ainda permanece com a vivacidade de outrora. Há algo de resplandecente nas nossas pupilas, na cor destas, no desvio de nossa vesguidão, no emblema do amor que é notório e cuspido em nossos semblantes, nesta coisa mágica que é a coincidência de amar... Ele ainda me pergunta se dói estar apaixonado. Digo-lhe que basta vivê-lo, e tudo mais será sanado... Deixo o recinto devolvendo-lhe o violão, apertando sua mão, dizendo burocracias do tipo apagar a luz ao dormir ou lembrar de escovar os dentes, olhando-o mudo e pensando no qual feliz somos. Sento em minha poltrona, abro o livro em qualquer página, mas deixo-me guiar pelos pensamentos duma coisa velha guardada, cheirando a ácaro, reciclando-me por inteiro...

Um comentário:

Élcia disse...

O meu anjo que lindo...linda surpresa..e vou querer ouvir...essa canção tocada por vc!!
num foi com ela que vc me conquistou???então..
A sua sensibilidade é de tamanha grandeza que fico lisonjeada, em saber que lhe inspiro nos seus contos...

Bju grandão do tamanho do mundo em ti.....meu poeta!!!!