segunda-feira, 11 de abril de 2011

O BALCÃO (AMORES DE BAR I)

Balcão de bar, ele chega.
“O de sempre, Percival...”
O atendente (antes servindo outro cliente) vira-se.
“Oi, Danúbio... ah, um ‘El Cabrón’. É pra já...”
Mal completada a frase, ela também adentra o recinto. Senta-se à frente dele, num outro balcão.
“Por favor, me vê uma dose de uísque com o mínimo de soda e um risquinho de leve de Campari, por favor...”
Percival, assustado:
“Um ‘El Cabrón’ também ?!”
Ela também se espanta.
“Como ?!”
“O que a senhora...”
“Pode me chamar de você...”
“Perdão. O que você pediu foi um ‘El Cabrón’...”
Ela pega o menu da casa, vistorea-o rapidamente.
“Bem, não vejo nenhuma bebida com este nome aqui... o que eu pedi foi instintivo, pedi sem pensar, apenas sei lá...” (procurando pelas palavras)
“Bem, senhorita... instintivamente ou não, o fato é que esta bebida não é normalmente vendida aqui neste bar. Na verdade é uma combinação criada por aquele senhor aqui...” (e aponta para o homem de paletó cinza e gravata frouxa)
Danúbio olha pra ela (vestido trivial, uma blusa de botão que pouco realçava seus seios), diz um monótono alô.
Ela também nem presta muita atenção na história. Parecia cobrar pressa do garçom.
“Ah, as bebidas... farei-as num instante. Favor, esperem...”
Alguns curtos minutos até o drinque estar pronto, ele acende um cigarro. Oferece então um do maço pra ela, que recusa. Pensou em dizer que parara de fumar, mas travou-se na constatação de que não queria muita conversa...
“Aqui está o seu, Danúbio...”
Põe o copo acima do aparador. Vira-se para ela.
“Agora o seu, senhorita... ainda pûs uma rodelinha de limão, pra dar aquela acidez necessária...”
“Ué, como é que você adivin...”
Censurou a premissa mediante o óbvio:
“Ah, é o tal ‘El Cabrón’...”. E sorri amarelo.
Dão o primeiro gole em silêncio. Percival, limpando um copo com um guardanapo, apenas acompanha os dois com os olhos, como se fosse um cowboy a espera de um tiro.
“Então você também curte um ‘El Cabrón’ ?!”
Ela ri ironicamente.
“Não, não, camarada... não pedi este tal de ‘El Cabrón’. O que pedi foi uma dose de uísque misturado em pouco de soda e quase nada de Campari...”
“E então ?! Isto é o ‘El Cabrón’ que inventei !!!”
“Nunca, nunca !!! Isto na verdade é uma boa duma filha da puta duma coincidência...”
Danúbio espanta-se ao ouvi-la dizer “filha da puta”. Não que seus ouvidos fossem virgens em chulas denominações vindas dum timbre feminino, mas aquele linguajar de estivador acabou-lhe por despertar o mais íntimo dos sentimentos. Um sentir antes morto pela infidelidade da ex-esposa, casamento de 23 anos e três filhos, um já em tese de mestrado. Ele mesmo só terminara uma má fadada graduação em Filosofia...
“Bom, que seja então... você vem sempre aqui ?!”
“Não muito. Só quando estou chateada com algo...”
Bingo: outra coincidência.
Ela prossegue e diz, como se o homem tivesse perguntado pelo motivo de sua chateação:
“Meu casamento está esmiuçando em frangalhos... pode, 23 anos de convivência, três filhos e de repente ele me troca por uma garota de vinte e três ?!”
Espantara esta outra coisa em comum: o amante de sua esposa também tinha 23 anos.
“É, entendo como é...”
E acende outro cigarro. Ela pensou em dizer que não era legal fumar em ambientes fechados, mas novamente se censurou...
Atiçado pelo tal acaso, ele puxa assunto:
“Bangu de 85 ?!”
Mesmo achando um tanto descabida a pergunta, ela responde em automático:
“Gilmar, Márcio Nunes, Jair, Oliveira e Baby; Israel, Lulinha e Mário; Marinho, João Cláudio e...”
“Ado ! O maldito que perdeu o pênalti na final !!!”
Ela apenas sorri. Ele se espanta. Estaria diante da tal alma gêmea ?!
“Gosto de futebol. E sou Bangu por causa do meu pai... Nunca me esqueci daquele final de 85. Eu tava lá no Maracanã...”
Ele também estivera, foi o que pensou. E continuou o interrogatório:
“Música internacional predileta ?!” (e pensa: “Se ela disser A Matter Of Feeling, beijo-a na boca !!!”)
Ela diz, sem pestanejar:
A Matter Of Feeling, Duran Duran... Música do meu bailinho de oitava série, no Duque de Caxias, do meu primeiro beijo no Antonelli...”
E completa, mesmo sem perceber a basbaquice do outro:
“Antonelli é o nome do cafajeste do meu ex-marido...”
“Você estudou no Duque de Caxias ?!”
“Sim, sim. De 80 à 87..”
Sem saber porquê, de repente achou que voz dela fosse a da mezzosoprano Denyce Graves cantando a “Habanera”, de Carmen.
“Curte Bizet ?!”
“Hãn ?!”
“Perguntei se você curte Bizet...”
“E o que é Bizet ?!”
“Bem, seria muito ela curtir Bizet...”, pensou Danúbio.
“Eu leio Nietzsche desde os 14...”, ela disse, sem saber o porquê do seu dizer.
Acabaram a bebida. Ele propõe:
“Mais outra ?!”
“Hum, melhor não...”
“Eu pago...”
“A questão não é esta...”
Na verdade tinha vergonha de lhe mostrar sua condição.
“Vamos, só mais uma...”, insiste.
Ela pensou em não se levantar antes dele ir embora, embora estivesse super afim de prolongar a noite ao seu lado...
“Não é todo dia que se encontra uma linda mulher que encare um ‘El Cábron’, que saiba escalar o Bangu de 85, que curta Duran Duran e seja leitora de Nietzsche...”
Pensou que tinha exagerado no “linda mulher”. Não que não fosse na real, muito pelo contrário: ela era do exato jeito que o encanta. Contudo julgou que chama-la assim de cara poderia soar como cantada vulgar.
Ela apenas sorri e se recrimina por não poder levantar.
“Não sou tão perfeita assim... Na verdade tem um detalhezinho em mim que pode lhe causar certa repugnância.”
Espantou-se, mas não quis demonstrar isto. O que seria de tão grave assim ?! Imediatamente pensou em se tratar dum transsexualismo, mas descartou isto ao constatar a ausência de gogó.
“Tenho vergonha disto desde o dia do acidente...”
“Acidente ?!”, pensou. Quase disse isto...
Neste momento percebeu que enxergava-na apenas da cintura para cima. O balcão tampava o resto...
“Acho que você já está sacando tudo né...”, ela diz.
Não insinuou, não concebeu nada, nenhuma constatação. Pensou em algo, mas preferiu não dizê-lo:
“Sinceramente não...”, jogou em blefe.
Ela bufa, dá pancadinhas no balcão...
“Viviamos felizes, estavamos bem finaceiramente... até pintar aquele maldito acidente. Desde de então ele me desprezou, não me procurou mais, começou a me trair... e, de um dia pro nada, pede separação alegando paixão por uma qualquer !!!”
Danúbio estava cansado daquele joguete.
“Perdão, mas você falou em acidente...”
“Foi. Tem seis anos já...”
“Certo. Mas ainda não fiz co-relação com o fato de você me dispensar...”
“Eu não estou te dispensando. Você me parece ser um puta cara interessante...”
Não entendia.
“Não entendo...”
“Tem certeza que você não reparou em nada ?!”
Nem precisava responder, a confusão escancarada de seus olhos...
Ela estava nervosa, visivelmente nervosa. Brincava, indolente, com a borda do copo. Respira e diz:
“Sou amputada.”
Era a concretização de suas certezas.
“Perdi a perna direita no tal acidente. Hoje uso uma prótese...”
Estava mais bobo do que no momentos das coincidências de gostos.
“Você deve ter perdido totalmente o tesão, né ?!”
Ele responde numa estranha gagueira:
“Nã... quer dizer... não, não... mas é que é...”
“Estranho ?!”
Parecia tira-lhe a palavra da boca.
“Bem, não é que seja estranho... até pode parecer, mas não é tão estranho assim... ai, não sei como me expressar !!!!”
Ela ri.
Ele então sai do seu lugar e se aproxima dela.
“Se você acha que vou desistir de você só por causa deste detalhe, você está redondamente enganada...”
O semblante dela fica sério.
“Mas eu tenho vergonha. Desde a separação eu nunca mais me envolvi com alguém...”
“E se eu lhe disser que também sou amputado ?!”
Agora era a vez dela ficar boba...
“Hãn, como ?!”
E só então percebeu...
“Bomba caseira, época junina, tive que aprender a usar a direita desde então...”
Ela ri, meio de nervosa.
“E eu pensando que você fosse canhoto nato...”
“Pois é... mais uma filha-da-puta duma coincidência, né ?!”
Foi a senha, fagulha, ícone, sinal de que o amor não segrega, ele simplesmente une...

E sairam, se encontraram assim nos desencontros da vida, como já cantou o poeta... Dormiram juntos, trocaram telefones, ligaram dia sim, dia não... novamente dormiram juntos, apresentaram famílias, encararam rebeliões internas, moldaram aceitações, quiseram casar, negaram o padre e assinaram papel, viveram até o sempre dos últimos suspiros...

2 comentários:

Ana Cleide disse...

- A riqueza como ele usa as palavras é único e é só dele poq o seu especial é brincar e nos divertir, nos emocionar e ensinar a cada novo conto, poema ou história...

Daniel Pablo disse...

esse foi de lascar
final surpreendentíssimo
magistral

parabéns