quarta-feira, 5 de março de 2008

ANA FERRUGEM

Ela era apenas a garotinha de sardas. E a galera mandava geral: “Ana Ferrugem, Ana Ferrugem !”. Não vou negar que este grito nunca tenha passado por minha boca. Afinal, toda criança de nove anos é, por excelência, maldosa com seus próximos. Encontrando defeito, então... Mas a garota tinha um par de olhos incrivelmente belos, tão azuis que perdia-nos neles. E o sorriso dela, naquele madurecer de aparelhos dentários, nunca saiu de minha mente...
Não era propriamente apaixonado por ela. Tinha, sei lá, pena por seu isolamento. Era nova na cidade, pais bancários. E tímida ao ponto de se isolar naquele canto de calçada, a frente de sua casa, segurando uma boneca em trapos. Descobri mais tarde que se chamava Ana Clara e era apenas dois meses mais nova que eu. Estava matriculada na mesma escola, na turma B, sendo eu da A.
Nunca conversei com ela. Nunca soube de alguém que tivesse o mínimo de amizade com Ana Ferrugem. Recusava fazer trabalhos orais e era craque em cálculos. Durante o intervalo procurava o velho jacarandá e lá sentava, parecendo dialogar com a podre boneca esfarrapada. Logo começaram as lendas: diziam que era uma louca fugitiva do manicômio, ou que era muda, altista, esnobe... Não sei o porquê de lembrar dela, tão agora, mais de vinte anos depois. Tantos amigos que marcaram minha infância, o Narciso, o Bozo, Rodrigo Balão, Amendoim... Quantas namoradinhas consegui só pelo fato de ser loiro com olhos verdes ? Nancy (meu primeiro beijo), Gláucia (ou seria ela meu primeiro beijo ?), Rose, Isabela... Enfim, tantas outras pessoas para se lembrar após uma garrafa e meia de vinho e logo tive de lembrar da Ana Ferrugem ?!
A uns dois ou três anos acho que a vi novamente. Ainda estava com suas marcantes sardas, mas o cabelo era tingido de castanhos. Passou por mim sem reconhecer. Ou será que conservava a sua colossal timidez de outrora ? Pra falar a verdade, não sei e certamente nunca saberei se a mulher de casaco negro era ou não a garotinha Ana Ferrugem... Ainda a segui por duas ou três esquinas, mas a imagem logo sumiu. E o que eu faria caso conseguisse contato ? Finalmente escutaria sua voz, enfim declararia todo o prazer que sentia ao vê-la tão abandonada, segura numa boneca e num canto ?

Então tomei mais um cálice e, para reforçar, acendi um cubano. Logo o pensamento se desfez e o sono pode prosseguir com suas sensuais intenções...

(2007)

3 comentários:

vladimir disse...

pow matheus.. sacanagem... fiquei na espectativa de a sua personagem falar com ela e ser amigos ou namorados....
pow mas é otimo por isso deixa um gosto de que não acaba assim... terá um final, quem sá feliz?!

Mateus Dourado disse...

bem, aí depende de sua óptica !!!
Mas eu quis revelar uma sensação q é minha tb: a daquela de quando vemos alguém de nosso passado e não o buscamos. Eu, como bom, platônico, sempre hei de ter finais desta estima, né ?!
Muito bom seus comentários, cara...
Abraços !!!

Germano V. Xavier disse...

Grande Vladimir, eu já estou é acostumado com a arte de esconder finais suspeitos desse grande mestre da literatura que é o Mateus... Ele sempre nos fazendo ver outros planos que não os convencionais, os esperados, os banais... Está aqui a prova cabal de que é um profundo conhecer desta arte-faca, que tanto perfura o ser...

Grande Mateus, grande texto...
Sempre por aqui me deliciando...

Abraços...
Germano