sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

NU E CRU

Conversavam nus, era a única hora que tinham para isto. Trabalhavam muito. E o momento do encontro de ambos era aquele: horário de almoço em suas repartições. Trabalhavam em lugares distintos, distantes. Sob a luz de uma fresta, conversavam nus. O quarto do vagabundo motel era o mesmo, o 302. Já tinham tamanha intimidade com o local que a moça já trouxera suas roupas intimas e o senhor, suas flâmulas de time de futebol. Também tinham porta-retratos espalhados pelos móveis da sala. Conversavam nus, apenas nus.
“É gozado isto, né ?!”
“Gozado o quê ?!”
Pensou em não dizer o que seria. O senhor dera sorte de estar com aquela mulher, quase trinta anos mais nova.
“Tu não disse. Gozado o quê ?!”
“Esqueça, Estela...”
Ele tinha nome de velho: Asdrúbal.Pais espanhóis e uma pele amorenada.
“Não, Asdrúbal ! Me diz ! O quê há ?!”
“Não é nada de interessante...”
“Mas eu quero saber !”
A juventude de Estela o assustava. Era casado, mas escondia a aliança para vê-la. Estela já sabia da condição do matrimoniado.
“Poxa, você não crê em mim mesmo...”, faz cara de dengo.
“Não é isto. É que é uma coisa tão idiota...”
“Uma coisa tão idiota que a idiota aqui não pode nem saber !”
Ele levantou-se e colocou o Rolex no pulso. Sempre começara deste jeito. Resolveu logo tirá-lo. Afinal, só nus conversavam.
“Você já percebeu que nós só conversamos assim...”
“Assim como ?!”
“Quando estamos aqui...”
“No motel ?!”
“É. Exatamente neste instante, depois de tudo.”
“Depois de quê ?!”
“Depois disto aqui ! Ah, você me entende...”
“Entendo não.”
“Estela, você conversa comigo ?! Liga pra mim por acaso ?!”
Pensou em responder que sabia que ele era casado, mas deixou pra lá. Talvez o fetiche de tudo era exatamente o mistério de suas identidades. Respondeu:
“Bem, Asdrúbal... Ah sei lá porque eu não te ligo !”
Lembrou-se que não tinha o número de telefone dele. Mas também ocultou isto.
“Pois bem, Estela. Então o momento de te conhecer é justamente aqui, neste local, assim...”
“Pombas, como assim ?!”
“Assim...”
“Assim como, raios ?!”
“Assim, nus...”
“Nus ?!”
“Nus !”
“E ?!”
“É estranho...”
“Como estranho ?!”
“Você é muito complicada !”
Levantou-se e novamente pôs o relógio. Pensou e acabou-o tirando. Voltou para a cama.
“Tu tá estranho, bem...”
“Eu estranho ?! E você ?! Sou teu namorado, não sou ?!”
Pela primeira vez ele declarou-se assim. Estela realmente não sabia o que Asdrúbal era para ela: amante ?! ficante ?! um casinho ?!
“É, tu é meu namorado. E daí ?!”
“Daí que você nem me conhece direito...”
“Sei o básico. Não basta ?!”
“O que você chama de básico ?! O nome ?!”
“Sei lá o que é básico... O básico é que eu gosto de estar com você.”
Asdrúbal pensou em se declarar casado. Não agüentou o fato de sua jovem amada nada saber dele...
“Tu sabe o nome de mamãe ?!”
Maria Aparecida. Vira na identidade.
Calou-se.
“E do meu pai ?!”
José Gregório. Também vira no RG.
Calou-se.
“Sabia que tenho um cachorro ?!”
Esta ela não sabia.
“Pra quê tudo isto, Asdrúbal ?!”
“Sabia que eu sou...”
Freou-se.
“Sou ?!”
“Que sou...”
“Vamos, Asdrúbal, diga ! Sou o quê ?!”
“Que sou... que sou... que sou Fluminense !”
Sabia. Já haviam discutido isto.
“Sabia. Você já havia me dito isto...”
“Já ?!”
Pensou em dizer algo que ela não soubesse.
“Qual o nome de meu melhor amigo ?!”
“Januário. Foi ele quem nos apresentou...”
“E de qual fruta eu gosto mais ?!”
“Desconfio que seja jambo. Você sempre pede jambo pra recepção...”
Calou-se.
“Também sei que você tem um Fusca 78, que prometeu nunca mais votar no Lula, que tem uma unha encravada, que...”
“Nada disto é útil !”
“Sim, e o que é útil ?!”
Encurralou-o.
“Tu não acha que tá bom deste jeito que tá não ?! Veja, pouco me importa saber o que você sabe de mim. Tu é bom de cama, é meu namorado...”
“Único ?!”
“Como ?!”
“Eu sou teu único namorado ?!”
Pior que não era. Estela saia com outro cara, um colega de repartição. Sempre as tardes, entre as três e as quatros...
“Hein ?!”
“E você ?! Sou tua única namorada ?!”
Engasgou. Levantou-se e vestiu-se, começando pelo Rolex. Ela também se levantou e vestiu-se. Saíram.
Nunca mais conversaram. Nem quando estavam nus.
Mas sempre se encontravam, horário do almoço, no 302 do mesmo motel...

(2006)

Um comentário:

Germano V. Xavier disse...

Você é mestre em narrativas diria "curtas e grossas", grande Mateus! Adorei o suspense do Asdrúbal... e que inspiração é essa para pôr nomes às personagens!!!
Você é fantástico, meu caro...
vou morrer dizendo isso.

Germano
Fica em paz!!!